Covardia e ingratidão

Durante um bom tempo, a impressão que se tinha de Eduardo Bandeira de Mello era de uma pessoa boa, tranquila (até demais em muitas ocasiões), equilibrada e sensata em muitas avaliações. Com a mídia a seu lado, o presidente do Flamengo tornou-se símbolo de competência e boa gestão.

Mas o futebol não falha quando o assunto é revelar a verdadeira face de muitas pessoas. O poder fez mal a Bandeira de Mello. Ele passou bom tempo centralizando o futebol para fazer com que suas vontades fossem impostas. O bom moço revelou-se um sedento pelo poder com o passar dos anos. Pensando num futuro político fora do Flamengo, mas também em eleger um sucessor no final do ano, o cartola colocou Ricardo Lomba como vice-presidente da pasta mais importante do clube, mas com poderes restritos.

O tempo passou, os resultados (como sempre) não vieram e então Bandeira de Mello revelou seus dois piores defeitos: a covardia e a ingratidão. Não, aqui ninguém contesta demissões. Ou melhor, ninguém é totalmente contra. Em qualquer empresa, funcionários chegam e saem. Pode-se até dizer que faz parte da vida. O problema é a forma cretina como elas acontecem. Senão vejamos.

Há 28 anos no Flamengo, Marcelo Martorelli atualmente era auxiliar de preparação física. O nome da função não o desmerece. Apenas existe, porque ao longo dos anos os clubes permitiram que cada técnico que chegava ao clube trouxesse um preparador físico de sua confiança. É um equívoco, se levarmos em conta que o clube tem uma comissão chamada de permanente. Mas, enfim, faz parte do jogo.

Martorelli foi demitido após a derrota do Flamengo. Fica a pergunta. Qual a culpa dele, que não contrata jogadores, não escala, não define padrão tático, não escolhe técnico, não faz substituições atrapalhadas, não contrata jogadores que não têm a mínima condição de vestir a camisa do clube??? Será que descobriram agora que um profissional com 28 anos de clube não serve para mais nada? Será que a saída de um preparador físico fará com que Pará, Rodinei, Rhodolfo, Renê, Trauco, Jonas, Arão, Diego, Dourado, Everton Ribeiro passem a jogar o fino da bola? Só um idiota acreditaria nisso…

À covardia com um profissional antigo somou-se a ingratidão com um ex-atleta, ex-técnico e, agora, ex-auxiliar. Vamos voltar um pouco no tempo.

Quando decidiu demitir Jayme de Almeida da função de técnico, em 2014, Bandeira e sua turma agiram assim: passaram a notícia para um famoso colunista de jornal. O objetivo é ver se teriam o apoio ou não da torcida. A reação foi contrária, Bandeira foi pressionado, criticado por Zico e pensou em voltar atrás. Mas não deu tempo. A atitude revoltou Jayme, que não aceitou pedido de desculpas, discutiu asperamente com o então vice de futebol Wallim Vasconcelos, e foi embora.

O tempo passou e Jayme voltou ao Flamengo a pedido de Vanderlei Luxemburgo. Por acaso, Luxa deixou o clube atirando contra Bandeira e sua turma. Jayme seguiu, assumiu o time em momentos difíceis e, mais uma vez, foi alvo da ingratidão do presidente. Ingratidão é a palavra certa. Jayme não apenas seguiu trabalhando mesmo sendo boicotado pelo então técnico Zé Ricardo, ou mesmo depois de ter sido traído por Bandeira em 2014. Jayme foi a pessoa que aceitou assumir o time depois da nebulosa saída de Mano Menezes, que evitou uma tragédia anunciada no começo da gestão Bandeira, que foi campeão estadual em 2014, e que ganhou o único título relevante de uma gestão desastrosa no futebol: a Copa do Brasil de 2013.

Martorelli e Jayme não precisavam ser eternos no clube. Eles só mereciam gratidão. Mas essa palavra não faz parte do vocabulário do presidente rubro-negro.

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